Por Arthur Nogueira, cantor, compositor e poeta
Agora chega de sarau, vamos partir para umas barras bem mais pesadas”, disse Cida Moreira em 1979, aos 28 anos, em um momento icônico de seu álbum e espetáculo de estreia, “Summertime”, em homenagem a Janis Joplin. José Possi Neto, diretor do show, explicou, na biografia “Cida Moreira, a dona das canções”, que, naquele instante em que dava seus primeiros passos como cantora, Cida Moreira não representava Janis, mas se apropriava da independência e da exuberância do ídolo para “descobrir a si mesma”. E ao longo dos anos é assim: Cida continua a se ver, e a nos deixar vê-la, sob o prisma de muitas mulheres-compositoras exuberantes como ela: Janis, Marianne Faithfull, Yoko Ono, Amy Winehouse e, é claro, Angela Ro Ro.
Cida Moreira interpretou as canções de Angela Ro Ro durante toda a sua trajetória. Em uma postagem no Facebook, ela contou que, naquele mesmo 1979 de “Summertime”, em um Chevette amarelo, acompanhou Angela rumo ao primeiro show da artista carioca em São Paulo. Assim se fortaleceu uma longa amizade, que a morte não encerrará, de “tantos anos, tantos shows juntas por esse Brasil afora”. De fato, Cida Moreira e Angela Ro Ro se apresentaram juntas inúmeras vezes. Numa dessas ocasiões, na cidade onde nasci, Belém do Pará, foi Cida quem carregou um piano nas costas quando Angela quase não subiu ao palco, delirante, dizendo-se perseguida. Na vida real, Angela foi, sim, muito perseguida, mas sua obra sempre superou todos os delírios, escândalos e preconceitos.
Não é o mito, mas a compositora atemporal e inabalável que Cida Moreira deseja enaltecer agora, quase cinquenta anos depois daquele verão de Janis, no novo espetáculo de voz e piano “Me acalmo danando – A música de Angela Ro Ro”. Em cena, no lume do espelho do presente, brilham duas mulheres da arte, maduras, conscientes, cheias de si. O passado, sem pesar, as compõe, mas a poesia insiste e renasce nos olhos do futuro. Como cantou Leonard Cohen, para Janis: “we are ugly but we have the music”.
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